sexta-feira, 4 de junho de 2010

Os 300 mil

Este artigo foi publicado no semanário Registo



A Manifestação, levada a cabo pela CGTP-IN, reuniu cerca de 300 mil pessoas, entre sector público e privado, no protesto pelas medidas de austeridade que o Governo, em subserviência aos ditames da Comissão Europeia, como é aliás seu costume, intenta levar a cabo.
Nos jornais de domingo e blogs de segunda, data em que estas linhas são escritas, a tentativa de menorizar este número, recorrendo aos mais variados métodos, entre os quais o de observadores “independentes”, tem sido por demais óbvia. No entanto para quem esteve lá e viu, não restam muitas dúvidas sobre a dimensão desta demonstração. Especialmente para quem já esteve em outras manifestações que foram cotadas em 150 mil, 200 mil, 250 mil.
Por demais óbvia também, foi a tentativa de dizer que os números das manifestações convocadas pelos sindicatos se mantêm estáveis, motivo pelo qual estaria esgotada a capacidade de mobilização da Central Sindical e dos partidos de esquerda. Acontece é que sendo crescentes esses números, e admitindo como é plausível fazer que dos muitos manifestantes vários até votaram no partido do governo, ou mesmo que muitos mais ainda estão descontentes mas num grau que não os levou, ainda, a manifestar-se, bem pode o governo ir pondo as barbas de molho.
Aliás sentindo o lume a chegar a casa a Ministra do Trabalho veio a público no mesmo dia salientar a postura construtiva de outras estruturas “sindicais” que, como todos sabemos têm tido um historial muito infeliz no que concerne a defesa dos trabalhadores. Estas estruturas responsáveis têm aposto a sua assinatura em todos os acordos e pactos que têm condizido à perda de direitos laborais, têm dividido os esforços de luta e servido objectivamente de alavanca aos interesses do patronato. E por isso mesmo são apodadas de responsáveis por quem detém o poder e por quem detém o poder dos que detêm o poder.
Hoje, perante esta ofensiva cuja agressividade é das maiores jamais sofridas pelo mundo do trabalho, e não só aqui em Portugal, estes sindicatos da “área do poder” estão de tal maneira manietados pelos interesses que servem que são incapazes de esboçar uma outra qualquer reacção que não seja a habitual: “Vamos fazer concertação”. Só que há concertação há anos e tudo o que foi feito e concertado apenas nos conduziu ao ponto onde estamos hoje. O que vamos concertar amanhã? Se nos permitem a tanga para tapar as vergonhas? Ou se é mesmo tudo cru e ao natural?
Os mensageiros do costume, temendo, vêm já dizendo que uma Greve Geral sem eles não teria consequências, ou que seria prejudicial para os esforços do país, ou que seria um enorme fiasco, tendo em conta da consciência do povo português para os sacrifícios para o bem comum. Só que na cantiga dos sacrifícios não cabem o sector financeiro e os seus 5,5 Milhões de Euros de lucros diários.
Sim, foram 300 mil, talvez até mais. E trezentos mil são muitos em greve, se a houver, mesmo se nestes estiverem pensionistas, desempregados, precários. Sim, são trezentas mil vozes que a um sábado saíram de sua casa, abdicaram do seu descanso, e vieram para a rua gritar a sua indignação. Não finjam que não viram e ouviram, fazê-lo só serviria para lançar o lume ao óleo.


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