sexta-feira, 5 de junho de 2026

O Facho medroso!

cartoon produzido com ferramenta de IA

A Constituição da República Portuguesa proíbe a existência de organizações que professem a ideologia fascista. Contudo nunca explica como identifica essa ideologia. Á luz dessa falta de definição partiu-se do princípio que se poderia aferir esse alinhamento a partir do Programa e Estatutos de uma qualquer organização candidata a constituir-se em Partido. Não posso fazer ideia se por negligência ou ingenuidade se pensou que tal documentação seria suficiente para ajuizar essa situação. Digo negligência, porque provavelmente muitos nunca pensaram que isso fosse possível – entre muitos outros que o faziam por interesse. E digo ingenuidade por me espantar que houvesse quem pensasse que uma tal organização iria plasmar nos seus documentos fundacionais semelhante afirmação. Perante a omissão e a divergência da prática o que esperavam que o Tribunal Constitucional fizesse? Dissesse para o líder: “O menino não deve mentir! Olhe que mentir é feio”? Bem sei que a observância do Tribunal obriga à verdade… mas que verdade se pode esperar por quem abertamente afronta a constituição?
Mas como nem só de organizações vive o homem, muito boa gente por aí anda alardeando democracia e tudo fazendo para impor no dia à dia o seu contrário. São os fachos encapotados, ou simplesmente medrosos.
Vêm estas observações a propósito da atitude do Edil da Capital. Como primeiro acto, sabendo bem o que isso significa para os trabalhadores, agenda uma Reunião de Câmara para o dia da Greve. Quantas vezes Reuniões de Câmara foram já adiadas por motivos francamente menos impactantes, como entrevistas, presenças em eventos e outras situações quejandas? Mas não! Este Edil tinha de mostrar a sua vontade de “partir a espinha” aos sindicatos, qual Sr.ª Thatcher temporã, e obrigar a que tos trabalhadores trabalhassem, esvaziando assim a sua luta contra um Pacote Laboral, que ele tanto aprecia, mas os trabalhadores não, sufocando a voz e a vontade destes.
Segundo acto, que deveria ser o primeiro cronologicamente, não fora a gravidade do anterior se sobrepor. Os trabalhadores da Empresa de Gestão dos Equipamentos e Acção Cultural, por entenderem desvalorizadas a suas carreiras e remunerações , convocaram uma concentração à porta do Município. Não é a primeira vez que trabalhadores o fazem, porém foi uma estreia que o Autarca chamasse polícia em número suficiente para formar um cordão policial que, ou revelava que o Presidente Câmara se aterroriza com a presença de umas dezenas à porta, ou quer utilizando a força policial, de cujos efectivos tanto se queixa por escassos, como uma arma de intimidação sobre os manifestantes, mais do pacíficos.
Terceiro acto. Não satisfeito com todos as acções tendentes a sufocar e atentar contra a livre expressão dos direitos democráticos, vem seraficamemte falar sobre a defesa do património, a propósito de murais pintadas. Mas é só a este património que se refere. Um homem que permite a demolição de edificados de interesse, a destruição de árvores assinaláveis, vem falar de que património? Mas apenas daquele que restringe a mensagem artística e política que mais dificuldade tem em dar a conhecer as suas razões.
Ou seja o Edil da Capital é, de facto, contra o direito à manifestação, contra o direito à greve e contra a livre expressão, por muito que o negue e faça profissão de fé na democracia. Ora não é preciso que o declare, a prática o demonstra, como deveria ser o padrão de demonstração do Tribunal Constitucional. Em suma é um facho, que o nega com a veemência dos que não querem que perceba, não tem vergonha do que diz e faz, mas medo que se perceba o alcance do que diz e faz, seja por convicção ou por oportunismo. Necessita de um cordão policial ou de outros para o proteger. É o que se poderia apelidar de um fascista medroso.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Lutar contra o Pacote Laboral! Expor as mentiras do capital!


Ao percorrer o YouTube ontem deparei-me com um vídeo cujo título mesmo absolutamente ofensivo, não deixava de ser hilariante. Rezava o pedaço de filme que o PCP estava a prejudicar os trabalhadores. Posso admitir que alguém num estado alterado de etilização, ou no uso de qualquer outra substância psicotrópica, possa afirmar algo do género. Porém para o fazer vai ter de o demonstrar muito bem demonstrado.
Acontece que verificadas as coisas, aquilo que fazia mais não era do que uma tentativa de denegrir a posição deste partido face ao Pacote Laboral e desmobilizar a Greve Geral que se encontrava à porta.
Um Pacote Laboral apresentado como uma “grande vantagem” para aumentar a produtividade e aumentar os salários no futuro, longe de preocupações de rendimentos em caso de desemprego, graças a uma milagrosa Flexi-segurança, saída de um mirifico reino da Dinamarca, onde como se sabe existe algo de edibilidade duvidosa, e que hoje não é mais mistério do que é.
Comecemos pelo início: os trabalhadores dinamarqueses gozam de subsídios muito generosos, a rondar os 90% do último salário em caso de despedimento. Ninguém diz, pese embora esteja plasmado nos relatórios, que face ao custo de vida esta generosidade acaba por se revelar bem ilusória, pois os valores dos últimos salários vão-se degradando rapidamente e 90% destes valores não garantem segurança absolutamente nenhuma ao fim de um ano. Só com um aumento zero do custo de vida se poderia garantir essa segurança, e isto não existe nem na Dinamarca, nem na Quinta do Infantado, nem no Dubai.
Fosse esta a única má notícia e os trabalhadores, ainda que com razões para tal, dificilmente sacrificariam um dia de salário para fazer uma greve. Acontece que não fica por aqui! Veja-se o que significa 90% dos salários, com os salários nacionais, onde para sobrevivem muitos trabalhadores dependem de dois, ou mesmo três empregos, face a custos de alimentação, transportes e habitação…
Mas não ficamos por aqui. Prevê a “benigna coisa” uma “virtude” chamada de Banco de Horas individual, perante a qual o trabalhador fica sujeito a horários absolutamente desregulados podendo trabalhar dias inteiros a fio em determinados dias e noutros ser mandado para casa, sempre sem certeza de ser chamado de urgência a substituir outro trabalhador. Sem condições de programar a sua rotina familiar ou pessoal, como se de uma ferramenta se tratasse – provavelmente sem sequer conseguir conciliar com o ou os outros empregos com que equilibra as contas, isto porque nem sequer é mais remunerado por isso.
Esta modalidade tem a enorme “vantagem” de “libertar” o trabalhador dos seus colegas pois provoca a caducidade dos contratos colectivos. Todos os trabalhadores ficam sujeitos a condições diferentes, nem se garante que para o mesmo trabalho seja obrigatório o mesmo salário. Passa a ser de acordo com o agrado com que seja visto.
Se for despedido e não provarem justa causa, não faz mal, não será readmitido – dão-lhe um dinheirito e põe-se a andar. Tudo isto para lhe evitar o constrangimento de ter de aturar um patrão que não gosta dele… Para este último é só pagar uns níqueis e livra-se a seu bel prazer de um funcionário incómodo.
Escusa de se preocupar com contratos efectivos, e outras chatices idênticas. Poderá passar a vida inteira com sucessivos contratos a termo resolutivo, tendo a “liberdade” de mudar de carreira a qualquer momento, proporcionada pelo humor do seu patrão.
Se tinha um filho com deficiência e tinha o direito a não fazer horários que implicassem não poder prestar os cuidados ao seu filho, pode alegrar-se, isso acabou agora com o sem deficiência as crianças são tratadas todas por igual e já lhe pode garantir a capacidade de se independentizar, ficando sozinho em casa ou de ser um menino crescido e ir a consultas ou para a escola pelos seus meios… não é isto uma “benesse” às famílias? E já agora as licenças parentais aos pais reduzidas e de amamentação às mães também. Afinal para que precisão as crianças dos pais? Ou de serem amamentadas? Não tem biberon?
Quando crescidos não tem que tem mais preocupações com o primeiro emprego deles, podem ficar anos à “experiência” e no fim ir ganhar “experiência” para outra empresa qualquer, como um novo Sísifo da modernidade laboral.
E já agora com a nova prestação social única, ainda fica habilitado a ir trabalhar voluntariamente para não a perder. Pode fazer um trabalho que poderia e deveria ser remunerado, mas não é! Podia fazer essa trabalho, com direito a férias pagas, 13⁰ mês, subsídio de alimentação e descontos para a Segurança social… mas para quê se o podem por a fazer o mesmo como voluntário-obrigatório, para não perder o subsídio. Já agora veja bem que a sorte não lhe toca só a si, mas aos seus familiares que, se não quiserem ser “voluntários” toda a família é premiada com a cessação do seu subsídio.
Como corolário pode-se dizer que de todas, mas todas, as alterações às leis laborais que, fariam correr do céu o maná com o aumento da produtividade, nenhuma fez nada disso, bem pelo contrário, somos dos países que mais horas trabalham, menos rendimentos auferem, que mais distribuem lucros por accionistas, que maiores índices de acidentes de trabalho apresenta e que menores valores tem de introdução de inovações tecnológicas nos sistemas produtivos.
Perante todas estas “bem-feitorias”, não será de estranhar que os trabalhadores avancem para uma Greve Geral e que o PCP continue a apoiar as acções destes para se “auto-prejudicarem”.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Que se passa? Então isto não é uma ameaça?


 

O Tribunal Constitucional é o órgão institucional que, em Portugal, zela pela observância dos princípios consagrados na Lei fundamental em todos os actos ou peças legislativas emanantes nos órgãos executivo e legislativo, entenda-se Governo e Assembleia da República. Assim quando este é chamado, de acordo com os vários preceitos – ou instado pela presidência da República ou por acção de um número relevante de deputados da nação, deve pronunciar-se sobre se a norma legal em questão observa os preceitos constitucionais e deve avançar, ou se é contrária à letra e espírito da Lei fundamental e portanto contrária aos princípios do regime democrático que emana da própria constituição.

Quando o Tribunal se pronuncia sobre uma norma, normalmente esta é abandonada. Se o Tribunal se pronuncia unanimemente é porque não existe qualquer dúvida interpretativa, do ponto de vista da Constituição, que conduza a uma visão de dicotomia e até antagonismo, na leitura do texto fundador da Democracia Portuguesa. Se este Tribunal não se pronuncia uma, mas duas vezes, ambas por unanimidade, sobre determinada norma é porque esta afronta directamente as bases do sistema do Estado republicano de direito democrático, em que vivemos. Permitir que se conteste a leitura do Tribunal Constitucional, nestas circunstâncias, equivale a colocar-se em desafio à Constituição de Abril de 76 e às normas aí consagradas.

É verdade que do ponto de vista legal é possível fazê-lo, recorrendo à reconfirmação dessa norma, através de uma maioria qualificada de 2/3 da Assembleia da República. Mas não deixa de ser do ponto de vista prático não uma revisão da constituição, mas uma alteração aos seus próprios fundamentos que denegam a legalidade da norma que se insiste em aprovar. Na prática é conferir ao órgão legislativo foros de poderes constitucionais e rescrever a própria lei fundamental.

O Presidente da Assembleia da República deve ter o cuidado de fazer a leitura devida à luz da Constituição que jurou, da gravidade do acto de aceitar um requerimento de reconfirmação de uma norma legislativa que procura ultrapassar o Tribunal Constitucional, especialmente numa votação unanime com reafirmação numa segunda votação sobre o mesmo tema. O que é admissível numa votação singela e por maioria, não o é numa votação unanime e confirmada.

Não foi esta a postura do Presidente da Assembleia da República ao aceitar o requerimento de um partido visando reconfirmar através do expediente legal uma norma legislativa que afronta de forma evidente e isenta de dúvidas a Constituição da República Portuguesa. Em lugar de defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição, a partir da sua posição institucional, o Presidente da Assembleia da República escolheu, afrontar e atacar as normas Constitucionais, através de um ataque ao órgão que zela pela sua observância e colocar-se assim entre os inimigos do regime saído do 25 de Abril de 1974.

A acção do Presidente da AR, é um acto sem precedentes e que fica desde já como uma nódoa indelével na história desta legislatura e do próprio órgão como um todo. Estamos doravante perante um Presidente que, em lugar de compreender as responsabilidades da sua função institucional se comporta como um mero elemento orientado pelos interesses imediatos do seu partido, e pelos interesses de uma facção social, cuja maioria parece ser muito mais um evento conjuntural do que uma alteração nas fundações da sociedade portuguesa.

A este tipo de atitude, movida pelo mero interesse eleitoral, ao sabor do que acredita ser o que é do maior agrado momentâneo, dá -se o nome de falta de sentido de Estado, e quem carece de sentido Estado, não tem condições de representar o País como segundo mais alto magistrado da Nação .

O actual Presidente da Assembleia da República, pode não gostar da Constituição, pode detestar e abjurar dos princípios fundacionais do actual regime da República Portuguesa, pode até desejar substituir esta Constituição por outra do seu agrado. Não pode porém esquecer que não foram essas as premissas da sua eleição, a natureza do juramento da sua posse, e o respeito e convivência que são devidos entre os vários órgãos institucionais. Não pode, nem deve esquecer, como o fez, que não é o Dr. Fulano de Tal, mas o Presidente da Assembleia da República Portuguesa, orgão emanante da Constituição da República Portuguesa, votada por maioria a 2 de Abril de 1976 e que entrou em vigor a 25 de Abril desse ano. Se assim não for, se persistir em ser uma ameaça aos órgãos, à CRP e ao Estado de Direito Democrático, não tem nem as qualidades republicanas, nem os valores morais que são exigíveis para o cumprimento com lealdade das funções que lhe estão confiadas. E não necessito dizer o que nesse caso deveria fazer ou ser forçado a faze


quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Entusiasmos à parte!


(texto publicado originalmente em Jornal de Lisboa)

Na beira de eleições presidenciais, e fazendo fé – se é que alguma fé se pode fazer – nas sondagens, a esquerda não conseguiria colocar nenhum candidato na segunda volta. Perante isto levantaram-se as vozes costumeiras, e algumas não costumeiras – dizendo que a “esquerda” se deveria, se não unir, pelo menos arregimentar-se em torno do candidato Seguro. Houve até um comentador de um jornal diário que fazia referência a criar um “entusiasmo” (não estou certo se era exactamente esta a expressão, mas escrevo de memória), em torno do candidato de “esquerda”. Estes apelos à “união das esquerdas” normalmente surgem quando o PS está a fazer contas a que sozinho lhe faltam aritmeticamente números que o possam alcandorar ao seu objectivo. Não porque tenha descoberto qualquer virtude de um projecto comum à esquerda, não porque vislumbre qualquer horizonte que vise uma alteração ao peso dos rendimentos do factor trabalho em relação ao dos “investidores” – utilizo esta linguagem porque é a mais perceptível aos quadros deste partido.

Acontece que qualquer unidade, qualquer convergência se fazem de projectos e propostas, e não é qualquer nome que conduza ao “entusiasmo” das esquerdas. Não posso falar por Livre nem BE, porque não lhes conheço os princípios básicos, nem tampouco sei o que os entusiasma ou conduz a juntar a sua vontade à do PS, a julgar pelo sucedido em Lisboa, basta-lhes a aritmética e os lugares e, portanto talvez isso facilite. Porém ao PCP a questão está muito longe de ser essa – e atente-se que não estou a falar pela direcção, mas tão somente como militante opinativo que se arroga conhecer o funcionamento do partido em que milita. Para os comunistas o apoio a um qualquer candidato que passe a segunda volta prende-se com as garantias que este dá de defesa da legalidade e da ordem constitucional, face as tentativas de subversão dessa mesma Constituição e, nesse caso poderia acontecer ser o candidato do PS, se este passar à segunda volta. Porém o candidato Seguro não se pode considerar um homem de esquerda. Quer pelas suas posturas enquanto foi lider do PS, quer pelo seu sistemático posicionamento político, favoreceu sempre as soluções que ideologicamente aproximavam o PS da direita e até mesmo a facilitação da acção destes Governos – difícil esquecer a abstenção violenta a um orçamento de destruição maciça do país. Não se pode esperar que possa vir de um partido que existe enquanto partido dos trabalhadores o apoio a posturas deste jaez, muito menos entusiasmo, para mais numa primeira volta em que é importante balizar a orientação da actuação do Presidente da República, tendo em conta os limites no seu poder, no campo da defesa dos valores constitucionais e reafirmar o que é uma visão de esquerda quanto a estes poderes.

Quando um qualquer animal tem bico de pato, patas de pato e grasna como um pato, será previsível deduzir que é efectivamente um pato. Quando um ser humano, tem posturas de direita, expressa as opiniões da direita e age no desempenho das suas funções, como uma pessoa de direita, então é de deduzir que essa pessoa é de direita, por mais que ela afirme o contrário. Não há aqui qualquer sofisma, é apenas a constatação de um facto. Portanto não parece exequível qualquer união, convergência, ou muito menos entusiasmo, perante tal candidatura.

As dinâmicas políticas  não são estáticas, e não sabemos o que irá acontecer, especialmente numa segunda volta. Estaremos seguramente aqui para assistir e analisar, como seguramente o estarão os órgãos dirigentes do Partido entre Congressos. O futuro será aquilo que o nosso povo determinar que o seja, “entusiasmos à parte”.

quinta-feira, 3 de abril de 2025

A UE não pode deixar de apoiar Israel

Monumento à 33ª brigada SS Estónia. (Não deixa de ser curioso que enquanto os monumentos da derrota Nazi estão a ser demolidos, os que glorificam a participação báltica nas forças Nazis são erguidos e glorificados)

É isso mesmo que leu… A União Europeia não pode ter outra postura do que remeter-se à inacção e quanto muito a formular alguma generalidades sobre o genocídio que Israel segue perpetrando ao povo Palestiniano. Não pode uma organização que autoriza, acompanha e promove o apartheid num dos seus membros, ter outra postura coerente do que ser conivente com o racismo e xenofobia israelita.
No dia 26 de Março o Parlamento da República da Estónia votou esmagadoramente aquilo que foi eufemisticamente chamado de restrição do direito de voto nas eleições municipais, mas que na prática é o cancelamento deste direito, bem como o de ser eleito, aos “cidadãos” de língua russa.
Esta atitude é justificada pelo Governo e o Parlamento de Talin pela invasão da Ucrânia pela Federação Russa, donde os elementos -seriam melhor designados assim – de língua russa se teriam tornado um problema para as tomadas de posição da República da Estónia.
Embora pouco ou mesmo nulamente divulgada pelos órgãos de comunicação nacionais, podemos encontrar na internet diversos textos de defesa desta posição alicerçada neste argumento. Porém a explicação dada esquece, ou omite, que a negação da cidadania Estónia a estes indivíduos ocorreu aquando da independência do estado báltico e nessa data não existia nenhum tipo de guerra na Ucrânia, independentemente das opiniões que se tenham sobre o seu início.
Nessa altura foram impedidos de ser cidadãos da Estónia, todas as pessoas de língua russa, independentemente da sua ligação ao território. Os cujos pais e avós para aí tinham ido viver no fim da segunda guerra, ainda tiveram a opção de ter a cidadania russa e assim tornar-se estrangeiros na sua terra. Os que por infelicidade, os seus antepassados para aí tinham ido habitar há 200 ou 300 anos, bem antes de existir Estónia, não tiveram direito a cidadania alguma, sendo apátridas (eufemisticamente chamados de não cidadãos), numa prática condenada pelas Nações Unidas, mas que desde há mais de trinta anos parece não causar mossa a ninguém. Hoje não têm passaporte de nação nenhuma, têm um passaporte de cor cinzenta (único na EU) de não-cidadão.
A uns e outros, que no conjunto representam 15% da população da Estónia, são restringidos direitos, que consideraríamos tão básicos como pleno acesso ao Emprego no Estado, à Educação ou aos Cuidados de Saúde, ou o voto na eleições nacionais. Se lhe trouxe à memória a situação na Cisjordânia ou um passado ainda não distante da África do Sul, creia não é mera coincidência.
Foi nestas condições que a “democrática” UE acolheu a adesão desta República, sem que nada fosse questionado ou levantasse a menor sombra de indignação nas instituições ou nos Estados-membros. Poderia dizer o mesmo da NATO, não fora o caso desta aliança militar não ter grandes preocupações em promover-se como baluarte da democracia e dos direitos humanos, ainda que o faça constar quando convém.
Se o voto local era já a última forma de se fazer ouvir, doravante será mais fácil ter-se nascido em Lanzarote, Santa Cruz das Flores, em Ballymena ou na Ilha de Gozo e ter direito de eleger e ser eleito em Narva, do que ter aí nascido, ter os seus avós e bisavós aí enterrados, e nem nunca ter sequer daí saído. Basta para tanto ter a etnia e a língua errada. Pode até não falar uma palavra de estónio, isso a si não se aplica. Basta que não seja russo.
Não estou em crer que estas observações venham a fazer a menor diferença ou a fazer pensar as mentes pensantes. Mas se fizerem acender uma centelha de curiosidade para procurar e investigar, então já terá valido a pena.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Esquerda ou a ilusão de ser de esquerda?

Entregarmo-nos a uma ilusão pode ser na maior parte das vezes a maneira mais fácil de evitar um problema. Fazer de conta que fazemos algo para ultrapassar, sem o enfrentar, e adormecer "naquele engano de alma ledo e cego..." Que, contudo "a fortuna não deixa durar muito".
Vêm estas comezinhas reflexões a propósito de algumas sondagens que vi sobre a "quebra" do Bloco face ao escândalo da "dispensa" - e digo dispensa até estarem cabalmente esclarecidas as circunstâncias da situação - de funcionárias que se encontravam em situação de amamentação de lactantes e, portanto numa debilidade acrescida face ao mercado de trabalho.
Devo dizer que não me admira que a prospectiva prestação eleitoral do Bloco viesse a reflectir o conhecimento público deste mau procedimento, especialmente em face da contradição que representa apresentar públicas virtudes e depois padecer de um género de vicios privados, bem mais chegados aos procedimentos do patronato.... É uma contradição incontornável, qualquer que seja o ângulo por onde observe.
Admira-me mais, ou se calhar nem tanto, que a esta "quebra" suceda um ascenso do Livre. Afinal até pela sua forma de agir o Livre não é garantia nenhuma de defesa dos diireitos dos trabalhadores e, posicionamentos fora das áreas dos costumes e identidades, só se lhes conhece aquelas em que vão a reboque de iniciativas alheias. Porém ao fim e ao cabo nem será de estranhar estas movimentações de intenções, afinal estamos num ponto em que um certo eleitorado deseja é que tudo mude, para que tudo permaneça igual. Uma política de esquerda, qualquer política de esquerda que realmente o seja, pugna pela mudança das situações e especialmente pela efectivação dessa mudança, seja ela o peso da fiscalidade aplicado ao trabalho, como a melhoria das suas condições e dignificação. E para tal é necessária não só a coerência das propostas a apresentar mas também a prática interna dos princípios propostos. A esta acção conjunta chama-se coerência e consequência e nem Livre nem BE cumpriram os dois requisitos.
É pois evidente que um eleitorado que bascula entre a falta de consequência e a falta de coerência, não tem na realidade o desejo de mudança social, mas tão somente da gestão hipotética da situação, por força com uma coloratura menos sinistra, mas cujos resultados são pífios, se é que existem alguns.
Bem se pode mudar do Linguado para a Solha, o resultado é exactamente o mesmo. O capital agradece!


quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

"A mentira como escudo"

"O PCP hipotecou completamente a hipótese de haver um partido verde, que viesse da sociedade civil e da social- -democracia, com aquela fraude que é o Partido Ecologista “Os Verdes”"
Luísa Schmidt in A Visão

Nunca, mas mesmo nunca, digitei uma linha para falar de uma pessoa em particular, pelo menos fora das funções que exerce. Hoje porém a indignação foi tão grande, que não me consegui conter. Deixar-se mover pelas suas opiniões políticas ao ponto de chamar fraude a quem consigo não concorda, passa todas as raias do aceitável.
Que do ambientalismo não consiga vislumbrar mais do que o seu tapa olhos permite, é um problema dela... Que não entenda que outros tenham visões e opiniões bem mais abrangentes, que relacionam o ambiente com a questão social, ao ponto de fazer uma acusação falaciosa  - cuja tentativa foi feita muitas vezes, mas nunca foi sequer consubstanciada e muito menos provada - é já a tentativa soez de difamar PCP, PEV, bem como os seus dirigentes.
A Senhora Luísa Schmidt não sabe o que é o PEV, nem a sua origem, nem a sua história, e desconhece a natureza do seu laço com o PCP, ou faz por desconhecer. A Senhora Luísa Schmidt não conhece a organização do PCP, nem tampouco se deu ao trabalho de conhecer, antes de afirmar, rasteiramente, aproveitando os preconceitos que muitos procuram alimentar contra os comunistas e tendo-se habituado a falar de cátedra sobre "tudo e mais um par de botas" e ser escutada, lançar os habituais anátemas quer sobre comunistas, quer sobre quem deles se aproxima.
Faço parte do movimento ambientalista há muitos anos, não presto vassalagem à Senhora, nem a ninguém dentro do movimento. Não faço parte dos que a consideram uma vaca sagrada, nem ela nem ninguém dentro deste movimento. Nunca fiz parte do Partido Ecologista "os Verdes", mas tenho neste muitos amigos neste partido e conheço bem a seriedade da sua actuação - de outras figuras não sei se poderei dizer o mesmo. Sou militante do PCP, como fui da JCP, e conheço bem o debate sopesado dentro deste partido em relação às questões do ambiente, sempre com a cautela necessária para verificar o que de facto eram questões ligadas à defesa do ambiente e recursos e a mera manipulação de sentimentos ou percepções a fim de facilitar a apropriação pelas classes possidentes.
Nunca os principios de um e outro partido se confundiram. Nunca as organizações destes se confundiram. E, em momento algum foram subservientes ou vassalas um do outro, o que, em bom rigor, é dizer mais do que muitas organizações ambientalistas em relação a determinados partidos.
Se os dois partidos encontraram, há muito, um entendimento eleitoral confortável numa coligação, foi porque este entendimento permitia convergências de acção que nunca puseram em causa a autonomia das respectivas organizações. Donde a Senhora Luísa Schmidt não sabe do que está a falar e melhor faria, na sua qualidade de investigadora, ir procurar primeiro antes de fazer afirmações gratuitas.