Não é segredo para ninguém que a fragilidade fronteiriça de Ceuta e Melila, sem entrar na questão dos direitos de territorialidade, determinam em vasta medida a pusilanimidade dos governos espanhóis em relação à questão do Sahara Ocidental e, pelos vistos, passaram a servir de arma de arremesso a todas as veleidades das autoridades espanholas na gestão de situações em que desejariam afastar-se dos seus mentores UE e EUA.
A direita, quer do PP quer do Vox, com posições bem mais concertadas com a Comissão Europeia, é bem mais desejável para prosseguir este papel histórico, do que uma social-democracia que não está tão convicta do convite à partilha do bolo do poder, como o está a social-democracia do norte da europa, que já cedeu a tudo e dará de bom grado o que lhe restar dos escritos de Jaurés e de Guesde, já para não falar da práticas de Palme, para poder partilhar o repasto dos poderosos. Não aprenderam nada com a história, nem a passada, nem a recente, como se vê com a Itália, a Alemanha ou a França. Não aprenderam nem vão aprender, porque há muito tempo renunciaram a promover a dignificação das classes trabalhadoras, trocando-as por umas esmolas de melhorias pontuais, que rapidamente se esvaem ou retrocedem perante a vontade do capital, a quem permitem a manutenção da dominação do poder e recursos em troca de uns efémeros momentos de governação.
No meio disto tudo, os arroubos de posturas dignificantes tem de ser duramente castigadas, veja-se o exemplo da camarada dinamarquesa do Primeiro-Ministro espanhol, que não hesitou em juntar a sua voz à direitista dirigente do Governo italiano, mesmo que a sua reivindicação não tivesse nada de realista e tivesse por base uma falsidade absoluta. Que alcance teria suspender o Reino de Espanha do espaço Schengen, se o território de Ceuta, por razões políticas nem faz parte deste? Apenas o isolamento internacional do seu Governo e a precipitação da sua queda. É isto a moderna social-democracia europeia e são estas as orientações políticas da União Europeia e nunca seriam nem outras, nem reformáveis, pois que a própria fundação desta entidade se baseia na defesa da apropriação privada dos recursos e da criminalização de qualquer política de defesa de interesse nacional e das populações.
O desnorte entre a defesa destes interesses, e do acarinhamento das forças abertamente nazi-fascistas, que dentro dos seus espaços garantem ao capital apropriar-se das riquezas naturais dos espaços, é tanta que politicamente não se coíbem de sacrificar as populações para salvar o capital. O que para a frente se passar na Groelândia, ou o que já se passa na Palestina, ou na Ucrânia é apenas reflexo destas condições.
Entretanto, no meio da sua prosápia democrática, a forma como o Reino de Marrocos utiliza a sua população como carne de canhão, se é que de facto considera a população do Rif sua população ou só o território. Isto não parece causar ao sistema democrático europeu qualquer problema, a menos que ultrapasse as fronteiras e assim o Governo do Marrocos, totalmente sujeito a uma coroa, funcionando como um absolutismo de facto, é aceite e prezado como democrático . A própria social-democracia esqueceu depressa os seus mortos, como Ben-barka, dissolvido no ácido da repressão do Reino.
A UE é uma instituição que em nada serve os interesses dos trabalhadores e dos povos, apenas o da exploração, o da acumulação de capital na mão de uns quantos e o de garantir a supremacia de governos de direita e extrema direita… mas ainda há quem acredite.
