terça-feira, 11 de agosto de 2009

Porta da rua!


O Sufrágio. Óleo sobre tela. Veloso Salgado. 1913 in www.museudacidade.pt

Fará dentro de pouco mais de um ano cem anos que Portugal vive em regime republicano. Mas à mais de cem que o Município de Lisboa goza de um pleno republicanismo. Nas eleições de 1908 a capital elegeu republicanos como vereadores da Câmara Municipal, mas não apenas alguns, todos os vereadores então eleitos pertenciam ao Partido Republicano, aliás os partidos defensores do sistema monárquico nem sequer apresentaram candidaturas por terem por certa uma derrota mais do que expressiva nas eleições.

Nestas eleições, que nem sequer eram universais logo excluíam as camadas sociais mais desfavorecidas que tenderiam a favorecer o republicanismo, as principais cidades e inúmeras outros municípios no sul do país elegeram, ainda assim, vereações republicanas, mostrando o estado decrépito da monarquia, daí que aquando da sua proclamação ela tenha sido formalizada na Capital e chegado pelo telegrafo aos vários cantos do país onde foi aceite placidamente. Nem poderia ser de outro modo.
A insanável contradição entre Democracia e monarquia não é apenas um mito. É uma contradição fruto da chefia do Estado estar nas mãos de alguém que o é por direito divino, logo vitalícia e inquestionavelmente. Pior, um direito transmitido hereditariamente, dentro de uma família ao longo de muitas gerações. Ente cujas qualidade de condução e presidência de um país estão muito longe de estarem comprovadas, tendo como único argumento uma preparação desde o berço. Esta realidade é algo totalmente inaceitável à luz de um direito que garante que todos os homens são iguais, donde todos podem ser escolhidos entre os seus pares para a presidir aos destinos do país e à orientação das suas forças armadas.

A ideia, tão em voga entre certos meios, que é tudo a mesma coisa só é diferente quem corta as fitas, não tem por isso qualquer cabimento. Até porque o que um Presidente da República pensa politicamente é claro, foi escolhido pela maioria. Era esse o pendor político que se entendia dar ao país quando se escolheu a quem ar essa responsabilidade, mesmo que seja apenas de árbitro da governação. Um rei ninguém sabe quais as suas opiniões, sendo certo que as tem, e em seque se pode retirá-lo se se entender dever ser outro o rumo do país. Daí que não seja de maneira nenhuma indiferente a chefia do Estado.

Daqui se pode concluir que não só a República é o único sistema de aprofundamento do processo democrático, mas também que a monarquia é absolutamente contrária aos fundamentos de um estado democrático.

A 5 de Outubro de 1910 em Lisboa, mas já antes, a 31 de Janeiro de 1890 no Porto, muitos homens e mulheres haviam visto isto mesmo com clareza meridiana. Nessa altura a porta da rua foi indicada à família real, com a determinação que teria de ser utilizada em relação a quem jamais abandonaria o poder a bem. Agora a estes novos talassas que insistem em inverter o sentido da história, tem de ser de novo tornado bem claro que de forma alguma estaremos dispostos a abdicar do principio básico da igualdade entre os homens para satisfação das suas ridículas vaidades. Como dizia a canção: “Somos livres, não voltaremos atrás”

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Não há paralelos

Cemitério de Badajoz - Republicanos fuzilados

Não me digam que é paralelo que eu não aceito. Não me digam que quem pela força de um exercito bem armado, massacra, tortura e oprime para garantir um privilégio sobre o direito dos outros se compara a quem não dominando as armas, com elas luta para garantir os seus direitos. Não me digam que é igual porque eu rejeito.

Na Espanha da Guerra civil nada é igual, não há nem pode haver respeito ou reconhecimento a quem agrediu, a quem cujo dever de lealdade ao Governo se tinha de sobrepor ao seu interesse de individuo ou de classe. Governo que era eleito, em urnas como qualquer outro Governo eleito nas chamadas democracias ocidentais.

Falou mais alto a vontade de oprimir, de humilhar, de se fazer obedecido e nunca contestado. Por isso nunca quem se defendeu pode ver-se a isso igualado. Não há igualdade entre quem agride e quem é agredido, entre quem quer mandar por direito de privilégio monetário ou divino e quem se recusa a ser mandado.

Por isso quem matou e torturou não pode ser lembrado, lembrados têm de ser outros.

Reproduzo aqui um poema de Gentil Valadares que anda moço viu esta guerra no lado de cá da raia, onde o seu pai, oficial da guarda-fiscal Tenente António Augusto Seixas, tanto fez para salvar da morte certa muitos Republicanos fugidos da agressão fascista.

Arriba Espanha

Ai nua…
Nua vinha…
E só uma andorinha, de asas abertas, negra,
Poisara no seu ventre cor de lua…
Tinham-na violado…
Feito dela matraquilho…
Raparam-lhe o cabelo à soldado
Depois de pôr-lhe o corpo num rodilho…
E bárbaros, cruéis, num gesto cínico,
Lhe deram de beber óleo de rícino…
Foi quando, num descuido, lhes fugiu…
A corta-mato, a furricar-se, veio
Por entre chãos de trigo e de centeio,
Até chegar, por fim, ao marco da fronteira,
E ela vinha por entre o matagal
A mastigar bolota de azinheira,
Dorido, mas pacifico animal…
As faces encovadas, de caveira…
E em cada olho a nódoa de uma olheira…
“Despe o sobretudo…Dá-lho!” (meu pai assim mandou)
E eu dei-lhe o sobretudo de bom talho…
E com ele é que a moça se tapou.
Era filha – nos disse – de Dom Paco
Um homem bom, porém, de má fortuna.
Dom Rubio, que era amigo, mas velhaco,
Aos raquetés o acusa de comuna…
E foi ditada a sorte:
Olhos vendados…Morte.
Ela, andaluza, sólida, morena,
Nascera na cidade de Aracena.
Seu nome era Pilar…
E negro o seu olhar.
Olhei o seu perfil…”A fronte é soberana.
De tranças pretas, saias longas, lenço,
Seria uma cigana…”
Mais tarde a vi em Moura, um mês depois
Na praça de toureio encurralada, de sobretudo trajada…
São mil e vinte e cinco espanhóis,
Mais pacíficos ainda do que bois…
Seguiram num “comboio especial”
A fim de embarcar na capital
Em barcos (dois) da Armada Portuguesa.
Sei que seguiram para Tarragona,
Porto de mar, perto de Barcelona.
Nem todos vão por mar.
Uns seis não embarcaram…
Foram de side-car
E sei que os fuzilaram!


Fuzilamento de Comunistas em Llerena in estudossobrecomunismo.weblog.com.pt


quinta-feira, 25 de junho de 2009

A Mascarada, a chantagem e os figurantes



Depois de terem visto recusada, em votação pelos trabalhadores, a sua proposta de sábados de produção, a administração da Autoeuropa avançou com medidas unilaterais de suspensão de trabalho por dez dias, na prática um lay off, com perda de salário por parte dos trabalhadores na ordem dos € 500,00 por ano.

Com velocidade estonteante vieram os jornais dizer que os trabalhadores ficam sujeitos a uma situação pior do que a inscrita no rejeitado pré-acordo.

Poderá até ser verdade que as condições draconianas sejam piores, o que isso não justifica é que se mascare de negociação a proposta anterior. Em ambos os casos os trabalhadores saíam a perder, um pouco mais rápido ou um pouco mais lentamente, mas em nenhum dos casos viam aumentar direitos ou regalias.

A tentativa de disfarçar a imposição de más soluções com processo negocial e decisão democrática é profundamente obscena, porque a intenção era apresentar a Autoeuropa como um modelo de relação laboral que não existe. As decisões são impostas pela administração e a escolha é meramente de mitigação. Se os trabalhadores rejeitarem não existem esforços para se chegar a uma solução equilibrada, apenas se impõem unilateralmente as medidas.

Aquilo que aconteceu, haja ou não nova votação na ponta da baioneta, deixou claro que a relação é exactamente aquela que sempre foi na clássica exploração: Quem tem a força manda, quem não tem sujeita-se. Sujeita-se às imposições do pré-acordo, que tinha achado no seu intimo inaceitáveis e atentatórias dos seus direitos, ou sujeita-se directamente aos actos vindicativos de uma administração que não pode ver vingar a sua encenação de democracia.

Pelo meio estão aqueles dirigentes que tinham o dever de zelar pelas justas reivindicações dos seus colegas. Que deveriam estar solidários com a sua condição. Que deveriam promover o desmascarar das encenações montadas. Que deveriam lutar pelo esclarecimento dos seus companheiros e da sociedade para esta situação. E que em lugar de tudo isto servem de correia de transmissão do poder, económico ou político, servem de disfarce deste tipo de mascarada de negociação, contribuindo para a perda de direitos e esmorecimento de justas lutas não só na sua empresa como em várias outras pelo país fora.

Este tipo de dirigentes contribuiu ao longo do último século e meio para a degradação das condições de vida e de trabalho dos seus semelhantes, a degradação da vida em sociedade, desorganizando vidas e famílias, contribuindo a montante para as situações de falta de acompanhamento de crianças e jovem com a consequente desagregação social e fenómenos anti-sociais.

Os crimes, porque de crimes sem por mãos se tratam, que este tipo de gente tem sido responsável, nunca são socialmente contabilizados, nem sequer analisados no dissecar dos comportamentos em sociedade, porém se um dia o vierem a ser que pesem primeiro que tudo na sua consciência porque é o único inferno de onde não há fuga possível, mas que lhos sejam sempre lembrados.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Há leis e leizinhas



Este é mais um texto que o Registo entendeu por bem não publicar. Porem como dizia Aleixo
"Quem pára a água que corre,
é por si mesmo enganado.
o ribeirinho não morre...
vai correr para outro lado"


Espero que seja esclarecedor.

Aproveitando a nacionalíssima data do 10 de Junho o Presidente da República aproveitou para vetar as alterações à Lei do Financiamento dos Partidos Políticos. Com a hipocrisia costumeira, PSD e CDS-PP aprestaram-se a louvar a presidencial iniciativa, como se não tivessem avalisado com o seu voto a referida Lei. Mais rápido do que é vulgar veio o Bloco afirmar que por eles está a questão encerrada, não esclarecendo nunca se justa era quando por eles foi votada. Ficou o PS ó tio, ó tio, com a criança nos braços, pretendendo enjeitá-la mas não sabendo bem como.
Afinal de que têm medo? No fundo só da mentira. A Lei que foi agora vetada não diminuía o controlo das contas dos partidos, nem aumentava a possibilidade de financiamentos por sacos, malas ou cabazes fosse do que fosse. O que dizia a lei, neste contexto era que as entradas em dinheiro poderiam atingir um patamar superior. Isto para permitir que os militantes que não possuíssem conta no banco, o que acontece com os mais pobres e com quotas mais exíguas, o pudessem fazer sem ter que recorrer ao amigo que transforma os valores em cheques de donativo e os entrega ao Partido, funcionamento mil vezes menos claro e transparente.
Resolvia também as contas da Festa do Avante pela simples razão que ninguém, no seu juízo perfeito, vai pagar um café, um gelado, uma bebida ou uma rifa com cheque. Coisa que aliás não acontece seguramente em nenhuma festa ou feira por esse país fora e ninguém ficou mais ou menos corrupto por isso.
A única questão a levantar, que nem se prendia com isso, era o aumento do financiamento do Estado e esse foi o único ponto que jornais e comentadores não levantaram. Possivelmente porque ao contrário do PCP que vive em 90% das quotas dos militantes, mesmo que pequeninas, os restantes partidos vivem do dinheiro do Estado, logo convém que este aumente.
Aquilo que se disse e escreveu sobre esta lei era absolutamente falso, e o presidente só agora a vetou não porque não quisesse perturbar as eleições, mas por receio que um debate às claras denunciasse os propósitos dos que queriam esta lei vetada.
Desengane-se V. Ex.a, desenganem-se os senhores comentadores e jornalistas, que não é assim que lá vão, não é assim que sufocam o PCP, não é assim que o obrigam a entrar no jogo dos financiamentos, nem é assim que põem termo à Festa do Avante. A festa, o partido e os seus militantes são do povo e a este pertencem, só pondo fim ao povo põem fim às suas manifestações nas várias vertentes. Vão atrever-se a fazer isso?

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Sinais



Os resultados das eleições para o Parlamento Europeu deveriam ser vistos como sinais. Sinais de que há uma população farta de políticas que não servem o seu bem-estar, farta de ver as regalias virem sempre para os mesmos, fatra de ver ser-lhes negado sucessivamente o direito a usufruir da riqueza gerada pelo país. Uma população que quer mais e melhor, que sente que com o seu trabalho constroi um país do qual merece ter usufruto. Foi este um dos sinais.
Foi também sinal que apesar dos cercos e silenciamentos, apesar dos boicotes e das mentiras, apesar das pressões e intimidações que existem por aí, houve um reforço seguro da Esquerda.
Sinais também aqueles que pensam que ter atingido o seu objectivo, mostrando claramente que os projectos pouco sólidos podem ter um crescimento rápido, imediato, mas que será tão efémero quanto efémeras são as vontades que deles se depositaram, e que voláteis voltam à partida assim que vislumbrem satisfeitas pequenas ansiedades ou que detectem algum risco mais real para o sistema que acarinham.
Não podemos ter qualquer dúvida, que ainda que as condições fossem difíceis, ainda que se tivesse criado um escape para os mais preconceituosos, ainda que nos dessem à partida estagnados e incapazes. Surgimos reforçados, em votos e em vontades, com certeza da justeza da nossa luta e coerência das nossas propostas.
É verdade que muitos votos serviram para eleger deputados que, se prosseguirem tão inuteis como inuteis têm sido, pouco ou nenhum serviço poderão prestar ao nosso país e ao nosso povo. Quem conhece as suas práticas sabe disto, quem acreditou ou fingiu ter acreditado, ficará por demais evidente. Entretanto continuam as dificuldades que na Europa se fazem, mas que como povo pagamos. Prometemos resistir-lhes.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Os Grandes Homens não morrem



Não pensava retornar tão cedo a este tema, não pensava que um dos homens a quem tenho dedicado algumas linhas deste meu blog nos tivesse já deixado. Coube a Luís Cabral a tarefa de ser o primeiro Presidente da Guiné-Bissau independente, coube-lhe talvez assim a mais ingrata tarefa na sucessão do seu irmão Amilcar. Tarefa mais difícil pois no projecto de União do PAIGC, a Guiné por não ter quadros próprios formados em quantidade suficiente era a parte mais dependente e mais sensível pela quantidade de povos, com hitórias e linguas diversas, que aí também se cruzavam.
É certo que potêncialmente muito mais rica do que Cabo-Verde, faltava à Guiné a homogeneidade cultural e o investimento em formação que, de alguma forma tinha existido nas ilhas. Não superadas estas condições, até por motivos interinsecos ao próprio movimento, que começou a fracturar em volta destas questões logo após as independências, tornou-se primeiro extramamente difícil gerir estas contradições e por fim completamente impossível, especialmente para um homem nascido e criado em Cabo Verde.
Com o golpe militar de 80, tal como aqui já disse, foi posto termo a este projecto original e a Guiná-Bissau afundou-se em contradições etnicas que ressuriram com bastante evidência, não tendo tido tempo de formar e preparar os quadros próprios previstos e deixando de ter a colaboração dos quadros cabo-verdianos.
Apesar das muitas alterações políticas posteriores, Luís não retornou à cena política guiniense. Não que a sorte do país tivesse deixado de lhe interessar, mas porque via com muita clareza a impossíbilidade de retomar o projecto do PAIGC e não lhe interessar o poder apenas pelo poder.
É neste ponto que reside a diferença de outros governantes, a ele, assim como a Aristides Pereira, só interessava o exercício do poder em nome de um projecto de desenvolvimento e não em prol de projectos pessoais. Por isso mesmo disse há uns meses que os grandes homens nunca morrem. Por isso mesmo mais uma vez Cabral ca morrê.

domingo, 31 de maio de 2009

O burro e a verdade



Não sou de ligar a opiniões de colunistas. Normalmente já sei ao que vêm e em raríssimos casos me dou ao trabalho de comentar este tipo de opinião. Porém no sábado ao ler o jornal do meu hábito, encontrei uma coluna de conhecida autora que perorava sobre as condições de trabalho na actualidade. Ou assim parecia...
Na realidade que tivesse lido esta coluna rapidamente percebia que o que incomodava a autora era a presença de mais de 85.000 pessoas na marcha da CDU. Ela que durante tanto tempo labutou denonadamente para cravar no PCP o epítoto de "neo-estalinista", seja lá o qu isso for, denegrindo propostas, apoucando acontecimentos, distorcendo posições, era agora confrontada com a adesão das pessoas a essas propostas? Ela que pelo trabalho procurou fazer crer que a política não tinha de ser feita com as massas, mas com grupelhos diletantes com propostas desgarradas, incoerentes, pseudo-modernas e pseudo-de-esquerda, mas com muita saída nas rádios e nos jornais, via agora surgirem 85.000 pessoas em apoio de projectos e políticas coerêntes, honestamente trabalhadas com afinco, com conhecimento de causa e de uma forma consistente e competente, mas que ela por certo abjura? Tal não encaixava no seu entendimento. E como não encaixava rapidamente concluiu que essas pessoas não estavam em apoio à CDU, nem sequer alguma vez lá tinham votado, estava quem sabe apenas "para ver as vistas".
Para colunista esta atitude revela uma incapacidade imensa, porque para opinar é necessário observar, analisar, dissecar a realidade, mesmo que não se concorde e se queira mudar. Porém como teria de reconhecer o falhanço do seu próprio propósito a autora perfere fazer como burro com anteparas nos olhos. Só que esse tem a desculpa que lhas puseram...e ela terá?