sexta-feira, 25 de julho de 2008

26 de Julho


Amanhã, dia 26, é o aniversário do Assalto ao Quartel da Moncada com que se marca o início da Revolução Cubana. A celebração deste acontecemento tem um alcance muito superior ao que imediatamente se associa aos desenvolvimentos da Revolução e reverbera, não só nos anos de Socialismo Cubano, mas em todo o desenvolvimento da história da última metade do século XX, e na causa da libertação da América latina em relação aos ditames dos EUA, que se iniciaram com a Guerra do México, consolidando-se mais tarde com a Guerra Hispano-Americana e com a Doutrina Monroe.

Não podemos esquecer como os EUA se procuraram apossar dos recursos destes países, recorrendo à força se necessário. Apoiando e instigando nacionalismos e guerras, sempre que isso era do seu interesse: Entre a Bolivia e o Brasil, entre o Brasil e Paraguai, entre o Chile e a Bolivia, entre o Peru e o Equador, para mencionar apenas as principais; A independência do Panamá face à Colombia, por forma a garantir a construção do canal do mesmo nome; Mais recentemente com a intervenção agentes, ou directamente das suas tropas, de que são exemplos paradigmáticos o derrube do Governo Arbenz, na Guatemala, o golpe de Pinochet no Chile, que culminou com o assassinato do Presidente Allende e as atrocidades contra os militantes e simpatizantes da esquerda (facto aliás lugar comum em todos estes processos da Argentina à Colombia onde prosseguem ainda), o golpe militar contra o Governo Goulart, no Brasil, ou a ainda historicamente recente invasão de Grenada e derrube do Governo Bishop, para não falar da continua desestabilização dos Governos que colocavam os interesses dos seus cidadãos acima dos interesses dos EUA, como na Nicaragua sandinista, ou com a ainda recente tentativa de golpe na Venezuela, em que se maquinava a substituição de um governo eleito, por outro mais de acordo às vontades de quem detem o real poder em Washington.

Assim o acto libertador da Moncada, e o resultado alguns anos depois da libertação de Cuba face aos interesses do capital Norte-americano, simbolizam que é possivel lutar face a forças muito mais possantes, e que por vezes se conseguem abrir brechas nessas estruturas, minando o sistema.

Não quer dizer que depois de Cuba se tenham posto cobro às actividades levadas a cabo contra os interesses dos povos. Aliás muitos dos acontecimentos apontados acima são bem posteriores ao triunfo do Movimento do 26 de Julho em Havana, com Playa Giron (Baía dos Porcos) e o Boicote económico sobejamente conhecido, pelo caminho. Mas, no que representou de inspiração de luta e resistência por todas as Américas e não só, foi um golpe duríssimo para os objectivos do Capital internacional. Graças a uma capacidade tenaz e de um espírito de solidariedade profundamente revolucionário, foi possível por termo ao colonialismo, especialmente ao português (aquele que mais resistiu), ao Apartheid na África do Sul e na Rodésia, resistir contra o Governo de Mobuto no Zaire e, abrir as tais veredas por onde acabará por passar o homem do futuro, tal como nas palavras do último discurso de Salvador Allende.

Acabará por passar, mas só a luta garante a abertura desses caminhos, e toda a luta começa com um acto libertador, que no caso cubano foi a Moncada. Bebamos então, como diz o Canto dos Operários, à independência do Mundo.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

El deziocho de Julio

fonte:http://www.youtube.com/watch?v=Cq8LFWUzOK4


Passam hoje 72 do Levantamento fascista contra o legítimo governo da República Espanhola, esta é uma data que importa lembrar, e lembrar sempre. Não nos podemos esquecer que milhões de pessoas foram mortas, deslocadas, viveram no exílio, passaram por campos de concentração dentro e fora da Espanha, foram torturadas, viram serem-lhes negados os seus direitos cívicos, culturais, linguisticos, em feridas que duram até hoje na sociedade espanhola e que os vencedores procuraram e procuram ainda hoje esconder, com a cumplicidade activa de Governos que tentam por no mesmo prato da palança quem procurou activamente derrubar o Governo legitimamente constituído e quem o procurou defender.

Hoje a Espanha não é a República que as eleições municipais de 1931 impuseram, e que a vitória da Frente Popular, de Fevereiro de 1936, reforça. Esta é a única legitimidade possível, nem o desejo de Franco de restabelecer a Monarquia Burbónica, com um Rei que jurou lealdade aos principios do movimento de 18 de Julho, nem o Referendo constitucional, que a consagrou, porquanto qualquer um escolheria entre dois o mal menor, legitima o actual sistema do Estado Espanhol, ou sequer resolve as profundas contradições, raízes da violência declarada, ou subtíl que afecta as realções da sociedade, desdos eleitores até às autonomias.

A lei de memória tranquilizou e abriu caminho a que penosas situações, como as valas comuns, ou as epígrafes franquistas, que humilhavam os repubilicanos e lhes lembravam a cada momento que esta Espanha, com ar civilizado e europeu, estava longe de ser aquela pela qual se haviam batido, não resolveu os problemas mais profundos da impunidade dos fieis partidários e serventuários do fascismo, que lucraram grandemente, quer monetáriamente, quer em poder, com o levantamento militar e derrota da República.

Nada está portanto resolvido, e nunca poderia estar, enquanto se pretender apagar da memória dos povos os momentos em que puderam ser um pouco mais livres e viver com uma dignidade que antes lhes fora sempre negada. Enquanto as questões não forem retomadas no processo histórico, enquanto não houver justiça, que nunca poderá passar pela consideração de que é para todos um monumento que não é para si, por muito que o trabalho tenha sido o trabalho forçado dos Repúblicanos. Enquanto a legalidade do Estado o não for de facto. Não estaram criadas as condições para vencer os legados mais negros que a história de Espanha deixou. Isso só acontecerá com uma Espanha onde de igual para igual se reconheçam os povos que integram o estado, as classes que integram o país, sentindo-se verdadeiramente representados desde a mais alta hierarquia.

Viva la República

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Ás armas cidadãos

Prise de la Bastille

Hoje é dia de Revolução. 14 de Julho 1789 marcou de forma profunda e inapagável a história da humanidade. É certo que a Revolução francesa está muito longe de poder ser considerada um movimento de libertação do povo, mas é um ponto de viragem na história da sua libertação.

A Burguesia torna-se pela primeira vez na história detentora do poder, no que se pode considerar um extraordinário avanço face ao modelo aristocrático do "Antigo Regime".

Doravante, mal ou bem, o poder não provem mais do direito divino, mas da legitimidade que a população lhe confere. Além disso ao analisarmos a revolução aparece claro que esta só é possível graças à adesão das classes mais desfavorecidas, ainda sem a consciência de classe que haveria de ser forejada mais tarde, com a industrialização, mas ainda assim são estas as massas que impulsionam a revolução.

O facto de não existir uma consciência de classe, fruto da sua vasta maioria não serem assalariados, mas sim servos, e de não existir um enquadramento ideiológico, porquanto a "Montenha" não é capaz de dar as respostas em termos de organização social para lá da ascenção da Burguesia, educional e culturalmente mais preparada, são factores impeditivos de avanços mais profundos dos que se verificaram. Porém não poderiamos esperar saltar essa etapa da história da humanidade que é o desenvolvimento das capacidades realizadoras da Burguesia, sob a forma de capitalismo.

Os saltos epistemológicos que se verificaram com as revoluções seguintes, especialmente aqueles em que a industrialização incipiente não havia permitido o desenvolvimento de uma classe burguesa que tivesse posto em causa a aristocracia, só seriam possíveis graças ao desenvolvimento a partir da Revolução Francesa, de conceitos, factores e capacidades de análise (em grande parte também ao desenvolvimento filosófico alemão, posterior às invasões napoleónicas) que permitiram retirar ilações relativas às capacidades de consciencialização dos assalariados para a sua condição e capacidades de intervenção dos mesmos, no qual a França irá ser o balão de ensaio até à Comuna, do qual sairão ensinamentos para outros processos.

Deste modo, faz sentido, para um blog como este, celebrar um dos dias mais importantes do processo revolucionário francês - A tomada da Bastilha.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

A Mulher que morreu cem vezes



Ao longo destes perto de sete anos todos ficamos a conhecer a saga de Ingrid Betancourt. Para quem não seguiu a história do início, esta antiga candidata presidencial Colombiana foi detida pelas FARC, durante a campanha eleitoral, permanecendo detida desde então por este exército guerrilheiro.
É questionável qual o motivo que levou os revolucionários a procederem à detenção desta mulher. Em principio as suas propostas enquanto candidata até pareciam vir de encontro às aspirações das forças guerrilheiras. Contudo há uma coisa que é inquestionável e nunca é dita, é que o regime “democrático” do Presidente Uribe, chamado de corajoso por responsáveis editoriais cá da parvónia, procede à prisão sem acusação e desaparecimento de inúmeros lideres sindicais, perante o encolher de ombros dos poderes instituídos.
É também muito evidente que, a Sr.ª Betancourt, gozava no momento da sua libertação de uma boa saúde, facto aliás corroborado pelos médicos, o que contrasta flagrantemente com as notícias que lhe atribuíam um sem número de maleitas, desde doenças de pele, malária, infecções no fígado, etc., que a teriam já morto, tendo em conta as condições do seu cativeiro.
Ou seja, a pretexto de uma causa humana, que era a sua libertação, a imprensa, do nosso burgo e não só, mentiu. Mentiu e continua mentindo, quando, sem afirmar insinua que os “raptos” são um meio de financiamento das FARC, quando nem um só cêntimo foi pedido, em qualquer momento, em troca da Sr.ª Betancourt.
Não se quer dizer com isto que as forças armadas revolucionárias estejam isentas de responsabilidades, inclusive em parte do narcotráfico, mas estão muito longe de serem o bando de gangsters que alguns tentam fazer crer. Especialmente se comparados com o próprio governo Colombiano. Quanto a Ingrid, esperemos que se venha a recandidatar à Presidência Colombiana e que possa ser uma voz mais na busca do fim de um conflito de mais de quarenta anos.
in Registo

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Caem os Mitos

Fronte: Granma

“Morte (dirigindo-se à Vida fútil): Vês como falham os projectos fúteis que por vaidade disseste ter feito? Não têm base as grandezas inúteis, caem por si, só eu as aproveito.”
António Aleixo – Auto da Vida e da Morte


Quando aqui há um ano atrás, já em recuperação, Fidel Castro escreveu um texto no órgão central do Partido Comunista Cubano, “Granma”, criticando ferozmente ao ideia da produção de biocombustível a partir das culturas agrícolas, rapidamente um coro no Mundo Industrializado, incluindo muitos ambientalistas, se ergueu, reclamando desta tomada de posição, considerando-a atrasada, adversária de um desenvolvimento sustentável e ambientalmente sadio.

Rapidamente os adversários políticos, mas também inúmeras pessoas bem intencionadas, se posicionaram visando colocar Cuba, mas com ela também os comunistas, um pouco por todo o mundo, na posição de inimigos retrógrados do ambiente. Posições muitas vezes sustentadas em argumentos que tradicionalmente serviram para atirar sobre os países socialistas o ónus de defenderem um desenvolvimento produtivista, com índices de poluição muito elevados, e que mais uma vez serviram de arma de arremesso.

Em vez de atentarem nos avisos feitos sobre a ocupação dos solos, com culturas que não serviam para alimentar a população, em lugar de tomarem a devida nota sobre os riscos de provocar, através da especulação, a subida incomportável dos preços dos géneros de primeira necessidade, para a maioria da população, através do seu desvio para a produção de combustíveis, a grande maioria embarcou em rasgados elogios à postura dos países que se iniciaram nesse processo, saudando mesmo a Administração Norte-americana, pelo primeiro passo no sentindo do combate à produção de emissões de dióxido de carbono e da diminuição dos riscos de aquecimento global.

Durante algum tempo, quando a realidade do aumento de preços era mais que inegável, alguns tentaram atribuir essa aumento à melhoria da dieta dos Chineses e Indianos que, tendo passado a ingerir mais carne, provocariam pressão sobre o mercado das rações e das suas respectivas matérias primas.

Agora volvido mais de um ano, foi o próprio Banco Mundial (essa conhecida organização cripto-comunista) a responsabilizar a produção de biocombustíveis pelo aumento em 75% do preço dos produtos alimentares) (vide “Biocombustíveis acusados de terem criado a crise alimentar” in Público 5/07/2008). Indicando inclusive os povos da China e da península hindustânica se encontram completamente inocentes do crime de provocar a fome a nível mundial. De facto representam apenas, e ainda segundo esta instituição que não é conhecida pelo apreço pelas opiniões dos comunistas, um aumento incipiente.

Perante estes dados caem os não só os argumentos mas também a máscara de muitos dos nossos “fazedores de opinião” e opinadores de serviço, que papagueariam contra os marxistas qualquer coisa, por mais exótica que fosse, apenas para negarem o valor da análise económica e até ambiental desta ferramenta de análise. Contudo depois de caírem falácias e aldrabices a validade da análise à luz das suas premissas subsiste.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Homenagem a quem resiste

Não gosto de colocar textos de outros blogs aqui. Não me parece que um blog deva reproduzir algo de um outro. Acontece que o texto sobre os Rosenberg, tinha tudo o que eu poderia desejar para prestar a justa homenagem a estas vítimas do Capitalismo. Mais umas daquelas que tão facilmente são esquecidas e descontadas.
Não vou nem iria fazer uma contabilização de mortos. Cada caído na luta vale por si mesmo e por esse colectivo de lutadores que ao longo de gerações vão travando o passo ao Capital em nome de uma sociedade mais justa.
Fica aqui então o texto do www.vermelho.org.br


Julius e Ethel, uma tragédia americana

"Só a luta organizada contra os traficantes do ódio pode salvar a paz e a liberdade” – Julius Rosemberg

“Há uma sombra toldando a alegria. Pesa uma grave apreensão sobre a consciência dos povos. Não se trata de milhões de vidas. São duas apenas. No entanto, não é uma questão de número, mas de princípios que está em jogo”. Editorial do jornal comunista Imprensa Popular de 14 de junho de 1953

Na noite de 19 de junho de 1953, centenas de pessoas ainda se concentravam do lado de fora da prisão de Sing-Sing. Portavam faixas e cartazes exigindo a libertação dos acusados, que em poucos minutos deveriam ser executados. Alimentavam esperanças de que as mãos dos carrascos não cumpririam a sentença e que o indulto viria. Mas, às 20 horas e 4 minutos as luzes do presídio fraquejaram. Era o anúncio da tragédia. Julius e Ethel estavam mortos.

Pelas páginas do Liberation, o filósofo Jean-Paul Sartre gritou sua indignação: “Vocês americanos são coletivamente responsáveis por esse assassinato. Alguns por o terem patrocinado, outros por tê-lo consentido. Vocês permitiram que a América se tornasse o berço de um novo fascismo”.

A Guerra Fria e o Macartismo

Aqueles eram anos difíceis para as correntes pacifistas e socialistas nos Estados Unidos. No plano externo a política do imperialismo era marcada por uma febril preparação guerreira contra a URSS; no plano interno pelo incremento de um clima de terror favorável a guerra, fazendo surgir uma lucrativa indústria do anticomunismo.

Em 1947 foi estabelecida a Ordem de Lealdade e o obscuro senador Joseph McCarthy apareceu na cena política norte-americana reativando o famigerado Comitê de Atividades AntiAmericanas. O objetivo era investigar as atividades de cidadãos suspeitos de possuírem idéias progressistas e de manterem relações com entidades que se posicionavam contra os interesses do governo dos Estados Unidos, ou melhor, contra
os interesses de sua política imperialista.

Pelos tribunais, dirigidos por McCarthy e seus sequazes, passaram nomes como Charles Chaplin, Bertolt Brecht (ambos expulsos dos EUA), Tenesse Willians, Orson Wells, Elia Kazan e outras centenas de artistas e intelectuais, muitos dos quais processados apenas por demonstrarem simpatias pelas causas mais avançadas ou se posicionarem contra a histeria anticomunista e os preparativos para uma nova guerra mundial.

Em 1948 o Partido Comunista dos Estados Unidos foi colocado na ilegalidade e seus dirigentes processados e presos. A democracia liberal norte-americana mostrava ao mundo a sua verdadeira face.

O Caso Rosemberg: O Processo e a Farsa

No dia 29 de agosto de 1949 a União Soviética explodiu o seu primeiro artefato nuclear, quebrando o monopólio dos Estados Unidos e limitando assim o poder de coerção que este país exercia sobre os povos do mundo desde 1945. No mesmo ano o povo chinês, liderado pelo comunista Mao Tsetung, derrotou o imperialismo, instaurou a República Popular e iniciou o processo de construção do socialismo. Em 1950 teve início a Guerra da Coréia, no qual o imperialismo norte-americano investiu todas suas fichas e acabou não conseguindo a vitória esperada: a Coréia do Norte sobreviveu e também se enveredou pelo caminho do socialismo.

Os EUA, que tinham sua política externa baseada no monopólio da bomba atômica, se viram enfraquecidos e desmoralizados por sucessivas derrotas. Isto os levou a endurecer ainda mais a sua política interna anticomunista.

Deste modo foi se forjando um plano diabólico para jogar a responsabilidade por todos os graves problemas que vinham atravessando o governo norte-americano nas costas dos comunistas. E quem melhor para assumir a culpa pela quebra do monopólio nuclear, e pelos revezes na China e na Coréia, que dois jovens cientistas, filhos de trabalhadores imigrantes judeus, com ligações com o Partido Comunista? Os homens do Pentágono e da Casa Branca já haviam encontrado os culpados: seus nomes eram Ethel e Julius Rosemberg.

Contra eles pesava também o seu passado. Ethel e Julius, quando jovens, haviam participado ativamente da campanha de apoio à República espanhola e se envolveram em atividades antifascistas e de solidariedade aos operários que foram demitidos por razões político-ideológicas. O próprio Julius foi uma vítima destas perseguições e acabou sendo demitido pela simples suspeita de ser membro do Partido Comunista dos Estados Unidos.

Em 17 de julho de 1950 Julius Rosemberg foi detido e menos de um mês depois seria a vez de sua esposa Ethel cair nas mãos da repressão. O processo contra o casal rapidamente se transformou numa peça de propaganda anticomunista mais primária. As suas bases se reduziam a duas únicas e frágeis evidências: a declaração incriminatória de David Glenglass, irmão de Ethel e ex-funcionário do Centro de Energia Atômica de Los Alamos; e uma velha escrivaninha, encontrada na casa dos Rosemberg, que a acusação afirmava ter vindo da URSS e que serviria para guardar os planos roubados – prova “inequívoca” de sua ligação com o comunismo internacional. Durante o processo várias provas contra o casal foram falsificadas pelos agentes do FBI, comandados pelo reacionário Edgar Hoover.

A defesa dos Rosemberg foi assumida pelo advogado progressista Emmanuel Bloch. Este, de maneira brilhante, desmantelou todas as provas contra os acusados. A carta-denúncia de David comprovou-se ter sido escrita sob ordens diretas do FBI. Quanto a escrivaninha, comprovou-se ter sido comprada em Nova Iorque por 21 dólares. Uma nova desmoralização para o FBI. Desfaziam-se, assim, as provas “contundentes” contra os Rosemberg.

Enfurecido o governo norte-americano passou a acusar e a perseguir todos aqueles que apresentassem simpatias pelo casal e por tudo aquilo que eles representavam. “Quem defenderia comunista senão comunistas?”, afirmavam McCarthy e Hoover.

Einstein, o maior físico contemporâneo, e Harold Hurey, ambos familiarizados com as pesquisas atômicas, apresentaram-se como testemunhas de defesa, propondo-se desfazer o mito do segredo atômico. Afirmavam que a URSS já possuía todas as condições para construir, com suas próprias forças, a bomba atômica. Propuseram a testemunhar sobre a incapacidade do casal em trabalhar com tal nível de tecnologia e, portanto, transmiti-la a quem quer que fosse. Mas, os seus testemunhos foram recusados pelo tribunal e Einstein foi colocado na lista dos inimigos dos EUA.

A brilhante defesa de Bloch e todas a provas da inocência dos acusados de nada valeram. A sentença já estava pronta desde o primeiro dia nas mãos do juiz conservador Irving Kaufman. Uma sentença forjada nos porões do poder norte-americano. E em 1951 os Rosemberg foram condenados a morte na cadeira elétrica.

Uma Justiça de Assassinos

“Nestes últimos dias, é necessário que o protesto contra esta bárbara injustiça atinja vulto sem precedente na História. Só assim é possível deter os carrascos que a esta hora confabulam na sombra, temendo a opinião pública mundial”, afirmou o editorial do jornal comunista brasileiro Notícias de Hoje de 14 de junho de 1953.

Diante da condenação, o mundo inteiro se consternou e se solidarizou com os jovens encarcerados. Até mesmo o papa conservador Pio XII intercedeu junto ao governo norte-americano por suas vidas. A mesma coisa fez o arcebispo de Paris e o presidente da Assembléia Nacional da França.

Milhares de religiosos e personalidades de todo o mundo enviaram solicitação de indulto. Intelectuais como Einstein, Brecht, Picasso, Sartre enviaram o seu apoio ao casal e organizaram uma campanha internacional de solidariedade. A Casa Branca viu-se inundada por centenas de milhares de cartas e telegramas de protesto.

As grandes manifestações se sucederam. No dia 11 de junho de 1953 duas mil pessoas se reuniram em Nova Iorque; no dia 14 foi a vez da Casa Branca ser cercada por 10 mil manifestantes, que exigiam a libertação dos Rosemberg. O centro das atenções nestas manifestações era os dois filhos do casal, Robert e Michael de 12 e 6 anos de idade. No dia 15, o povo inglês realizou o seu protesto na frente da embaixada norte-americana onde deixaram uma grande faixa que dizia “Para que o ideal dos Rosemberg sobreviva, os Rosemberg não devem morrer”.

Por quatro vezes o pedido de revisão de processo foi lhes negado, o indulto presidencial também não viria. Mas, a firmeza dos Rosemberg continuava a espantar a todos, inclusive seus inimigos, aumentando o respeito mundial pelo casal.

Então, o governo dos Estados Unidos, desesperado e isolado, apresentou a sua última proposta: “digam-se culpados de espionagem, mas arrependidos e serão perdoados, escapando assim da morte na cadeira elétrica”. Foi Ethel que respondeu aos seus carrascos: “Somos inocentes (...) Esta é a absoluta verdade. Renegar a esta verdade seria pagar um preço demasiado alto (...) porque com uma vida assim comprada não poderíamos viver com dignidade e respeito. Não somos mártires, nem heróis e nem aspiramos a sê-lo. Não queremos morrer. Somos jovens, demasiados jovens, para morrer”. Na sua última mensagem ainda afirmaria: “Não estou só, e morro com honra e dignidade, sabendo que meu esposo e eu seremos reivindicados pela História”.

Na noite de 19 de junho de 1953 os Rosemberg, com dignidade e honra, foram executados na cadeira elétrica. Sob suas tumbas Emmanuel Bloch, traduzindo a opinião pública mundial, afirmou: “Não se fez justiça, devemos nos indignar (...) A justiça no caso dos Rosemberg foi uma justiça de assassinos”.

Um Grito Contra a Injustiça

As notícias da tragédia causaram uma profunda indignação nas consciências progressistas de todo o mundo; em especial, entre as forças socialistas e proletárias. Na cidade de Paris, milhares de trabalhadores, convocados pelos jornais comunistas, realizaram um grande ato de repúdio diante da embaixada norte-americana. Nos choques que se seguiram centenas de manifestantes foram presos e um caiu baleado.

Em Roma, dois mil trabalhadores manifestaram-se pelas ruas da cidade até a meia-noite, quando foram dispersados pela polícia. No dia seguinte os trabalhadores paralisaram suas atividades por alguns minutos. Era a última homenagem que a classe operária italiana prestava aos dois mártires da causa da paz e da liberdade.

Em Londres, milhares de pessoas se concentraram no Hyde Park e quando o Big-Ben anunciou uma hora da manhã a multidão dedicou-lhes dois minutos de silêncio, não havendo maiores incidentes. Mas, em Dublin, populares enfurecidos passaram a depredar as instalações das agências de notícias norte-americanas. A classe operária de vários países deu, mais uma vez, uma resposta à altura ao banditismo da justiça e do governo norte-americanos.

O Exemplo dos Rosemberg Resiste

Os Rosemberg morreram, mas o seu exemplo de vida e de luta continuou a iluminar o caminho de milhares e milhares de homens e mulheres, combatentes da liberdade e do socialismo.

O macartismo, representante do velho contra o novo, graças à pressão da opinião pública mundial não pode se manter e teve de ser desmantelado, ainda que provisoriamente. O próprio McCarthy, desmoralizado, acabou sendo processado por abuso de poder e condenado a obscuridade da qual jamais deveria ter saído. Os senhores do império viram-se obrigados a se livrar de um incômodo aliado, que até então lhe servira tão bem.

Atualmente, sob a administração Bush, vivemos à sombra do renascimento do fascismo nos Estados Unidos. Sob o manto do combate ao terrorismo se desrespeitam os direitos humanos e se arquitetam planos de dominação mundial e novas guerras de conquista. Por isso afirmamos que, mais do que nunca, os ideais pelos quais viveram e morreram os Rosemberg continuam vivos. E um dia, mais cedo ou mais tarde, a História transformará em realidade a profecia que Ethel fez a seus filhos, pouco antes de sua morte: “Alegre e verde, meus filhos, verde e alegre será o mundo sobre as nossas campas”.

Que assim seja!

quarta-feira, 18 de junho de 2008

As alterações ambientais e a superação histórica dos sistemas económicos



Não existe natureza no seu estado primordial. A ideia de que os princípios ecológicos e ambientalistas defendem uma natureza pristina está, de um ponto de vista científico, completamente errada. Todo o ambiente actual é fruto da acção do homem, quer pela apropriação dos recursos, quer pelos resultados dos seus processos de transformação.

Desde que as sociedades deixaram os processos recoletores e passaram a produzir bens para o seu consumo, alteraram radical e irreversivelmente o meio natural à sua volta; Alterando as características das espécies; Alterando a morfologia e composição dos solos; Alterando o coberto vegetal; E, alterando em última análise a própria composição da atmosfera.

A alteração dos sistemas económicos dá-se quando se esgotam as possibilidades de exploração e transformação das matérias primas. Normalmente, este fenómeno dá-se quando, de um ponto de vista tecnológico não é mais possível avançar na exploração de um ou de mais recursos, ou quando a alteração do meio é de tal forma radical que afecta gravemente as possibilidades de rendimento da exploração do trabalho humano.

A mudança do paradigma Esclavagista, enquanto principal modo de produção (e não nos podemos esquecer que sob certas formas subsiste até aos nossos dias), para o modo Feudal, dá-se quando o exaurir dos solos de maior produção, e desaparecimento em massa de espécies (fruto da depredação incontrolada do recurso), aliado aos fenómenos de assoreamento, derivados das acções de alteração e gestão dos recursos hídricos, impossibilitam as actividades comerciais marítimas. O depauperamento da circulação fiduciária e mercantil torna impossível o trabalho dos artesãos e, subsequentemente do produto acabado.

A resposta que o Feudalismo produz, prende-se com a propriedade da ferramenta. É um facto que do ponto de vista tecnológico isto representa um retrocesso na capacidade de exploração do recurso, mas representa ao mesmo tempo uma exploração de menor impacte. O trabalhador deixou a condição de escravo trabalhando com ferramenta alheia (ou operando sistema de propriedade alheia) a troco da sua subsistência mínima, mas passa à condição, ele próprio, de parte inalienável da propriedade, explorando-a para o Senhor, mas proprietário da sua ferramenta e extraindo ele mesmo a sua subsistência.

A incapacidade deste modo de produção em dar resposta a eminente desarborização da Europa, e aos sucessivos aumentos da população, no que estes representavam de pressão sobre o recurso finito, criou as condições para o aparecimento de uma nova classe, ligada primeiro às artesanias dos burgos, e posteriormente à manutenção de assalariados. Esta ao transformar bens em mercadoria de uma forma sistemática, gerou a criação de mercados e a acumulação de Capital de investimento, capaz de ser empregue em formas de diminuir os custos de exploração dos recursos, tornando-os a um tempo mais acessíveis, mas também mais lucrativos.

Pelo que representavam de utilização de mão de obra extensiva e resistência à introdução de novas formas de exploração dos recursos quer o que restava do esclavagismo, quer do feudalismo é sistematicamente combatido pela Burguesia em ascensão, quer esta luta se apresente como o abolicionismo, quer como a Lei dos “open fields” britânica.
Estas situações garantiram uma mão de obra crescente, livre, mas que depende para a sua sobrevivência, do aluguer da sua força de trabalho, operando ferramenta ou sistema alheio, a troco de um salário abaixo do valor do que produziu, e em condições extremamente degradantes, que hoje subsistem em inúmeros países em vias de industrialização.

De novo as alterações do ambiente se prendem com a necessidade de produzir mais e menor custo e, por força da necessidade de consumos sempre crescentes sem os quais não existe circulação fiduciária e acumulação de Capital, ao desperdício.

Os crescentes fenómenos de poluição, destruição de solos, meio hídrico, biodiversidade, prende-se assim com a utilização crescente de tecnologias que tornam mais barata a exploração de matérias primas, mais baratos os custos da transformação (por substituírem o trabalho humano) e por crescentes sociedades de consumo. Estes são os pilares da degradação social e ambiental, por força do crescimento de uma economia que vive em função da acumulação.

A tendência ao esgotamento dos recursos a que assistimos, aliada à alteração significativa das condições climáticas, fruto da sobre-exploração dos recursos, voltam a colocar a humanidade face à necessidade de uma racionalização de produção e consumo, afastando-as da ideia da oferta e procura, ou seja da ideia da auto-regulação do mercado.

Hoje em dia é por demais evidente que o mercado livre e desregulado, não dá respostas a nível social e ambiental e agrava de forma clara a vida no planeta, e que criar mercados, como o biocombustível, para atalhar às questões de esgotamento e subida de preços dos combustíveis tradicionais é, não só ambientalmente como socialmente perversa, como se verifica pelo aumento em escalada dos produtos cerialíferos, nos chamados mercados de futuros, mas com repercussões sociais gravíssimas na actualidade. Mas o que é verdade para os biocombustíveis, é verdade também para os produtos carboníferos, como a hulha (mas até a lenhite) que haviam sido abandonadas, nos anos 80, como pouco rentáveis, colocando no desemprego milhares de trabalhadores em Inglaterra, França, Bélgica e Alemanha.

Desta forma, é fácil por em evidência que nem a Natureza é um valor intocável, pois cada acção humana é transformadora da mesma, nem é possível prosseguir a sua exploração de uma forma que visa apenas a acumulação de Capital. Bem pelo contrário ela tem de ser suporte da satisfação das necessidades humanas, sendo a economia utilizada como um mediador entre as capacidades de carga do Planeta e essa mesma satisfação. Mas não é isso mesmo a sustentabilidade?