sexta-feira, 24 de abril de 2009

Sempre que Abril aqui passar



De novo 25, de novo à Rua, de novo eu grito. Grito para fazer notar que há injustiça, desemprego, falta de condições e direitos, de habitação, de saúde, de educação, de cultura, de ambiente. Grito porque há discriminação e os direitos de igualdade entre todos os cidadãos são letra morta, quando os imigrantes se sentem descriminados, quando os ciganos se sentem descriminados, quando os negros se sentem descriminados, alimentando todos eles ciclos de desespero e violência. Quando as mulheres do meu país recebem menos por igual trabalho, têm funções de emprego e de empregadas em casa, quando para elas a realização pessoal está ainda aquem dos seus sonhos, eu Grito. Grito porque há gente sem casas, casas sem condições, condições em casas de ninguém, tenho de gritar assim também. Grito, grito pela água que bebo, pelo ar que respiro, pelo solo onde ando, todos eles vitimas da ganância de uns quantos, grito. Grito e gritarei sempre por todos aqueles que não gritam, por todos os que se esqueceram de lutar, por todos aqueles que a inércia do dia a dia embota os sentidos, os tolhe e impede de batalhar.
Amanhã é 25, Dia de festa e luta, por aquilo que se conquistou, por aquilo que há ainda a conquistar, pelo Mundo que existe a transformar, estarei por isso eu na Avenida a lutar, pelo seu nome, por uma Liberdade de verdade que há de um dia chegar.
Abril de Novo estou contigo.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Quem tem a Candeia acesa?


foto in estudossobrecomunismo2.wordpress.com

Dois alunos da Escola de Penacova terão de realizar serviço comunitário por terem encerrado o portão desta Escola a cadeado, no âmbito do protesto contra o "estatuto do aluno", que este governo e a mui diligente Ministra da Educação querem impôr aos estudantes deste país.
O Ministério Público acordou com esta "punição", evitando assim a "condenação" judicial dos dois jovens.
A Câmara Municipal de Santa Comba Dão, irá inaugurar, pela mão do seu presidente, as obras da Praça do Largo, retomando o velho nome de Praça Oliveira Salazar, no próximo sábado, 25 de Abril.
Estas notícias, uma e outra, mostram o quão próxima de nós se encontra a longa noite fascista. E próxima de nós porque voltar a nomear, com honras de toponimia, o Ditador é um acto tão grave quanto procurar silênciar e punir quem protesta, contra um acto que o ofende, especialmente tão próximo do dia da Liberdade.
Estes actos, um e outro, só mostram que neste país há quem esteja saudoso dos tempos em que mandar podia, espezinhando quem se oponha, oprimindo quem protesta. Os Estudantes que a GNR deteve, não destruiam propriedade, não vandalizavam a Escola, não ameaçavam professores ou colegas, não impediam aulas, nada disto. Porque para esses, tantos por esse país fora existe complacência e atenção, mas não para quem protesta. Para quem põe em causa a autoridade, que deve ser incontestada, tem de haver castigo exemplar para que amanhã outros não protestem. Era este o ensinamento do fascismo, era esta a lógica do Presidente do Concelho. Por sinal com bons seguidores, por entre os rosas e laranjas, que rapidamente põe em cima da mesa as práticas e as honras que ao ditador reconhecem necessárias.
Temos um país onde o medo não desapareceu e se procura estimular, perseguindo sindicalistas, trabalhadores, estudantes, e todos aqueles que se opõem às políticas e práticas dos governantes, onde impera o sátrapa e o tiranete, possuidor de uma qualquer sinecura obtida por clientela política ou circulação de poderes e capitais mais do que duvidosos, onde vinga a sabujice e o seguidismo, esperando colher alguma das migalhas que cai da mesa do chefe, onde manda a incompetência mais serôdia, que se limita a satisfazer os desejos daqueles que por força do dinheiro humilham e vendem esta terra que é nossa.
Qualquer semelhança entre esta imagem do país e o país de 24 de Abril não é pura coincidência. Lentamente vão tentado o que então não conseguiram, cerrar as as portas que Abril abriu. Falharam então! Mas foi preciso que povo lhes tivesse feito frente, criado barreiras, travado o caminho. Falharão também agora! Mas será preciso não calar, levantar a voz e o gesto, denunciar a provocação e a prepotência, resistir à presiguição e à calunia, travar por todos os meios a ofênsiva revanchista que por todo o lado procura impor outra noite sombria.
É preciso contra estas novas trevas levantar bem a candeia acesa pela nossa indignação.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Tot libre és una eina de libertat


Mais Livros in comentariosdejoinville.blogspot.com

Há dias para tudo, só nos últimos dias tivemos o Dia da Terra, que me diz muito quer em termos do que representa na luta das populações por uma qualidade de vida digna, quer no que representa no colocar das questões da exploração de recursos nos devidos lugares. Uma e outra mostram claramente que sem uma alteração de sistema não será possível corrigir as contradições entre a utilização de recursos para satisfazer necessidades e a sua mercantilização e apropriação comercial, bem como a sua transformação fazendo recair as externalidades sobre os utilizadores do produto final.
Isto que vem sendo apontado como principios de poluidor-pagador, não é de facto assim. Com efeito quem se apropria do custo da reposição do meio não é o utilizador, e portanto não é este também o poluidor. O poluidor encontra-se naquele que obtêm os lucros da transformação, apropriando-se quer das mais valias sociais (as chamadas externalidades sociais), quer das mais valias naturais (as chamadas externalidades ambientais), é sobre este agente, e sobre o que posteriormente comercia o produto ganhando na expeculação, que devem recair os custos de reposição da situação pristina, no que pode ser reposta. É este o poluidor que deve e tem de pagar, e portanto é este o princípio do Poluidor-pagador que tem de ser seguido.
Mas embora os temas se interliguem, a data que referiria hoje, é a data do Dia mundial do Livro, que começou a ser celebrado na Catalunha e foi posteriormente alargando-se das fronteiras deste país para o resto do Mundo (a referência à Catalunha como país não é um equívoco, é intencional).
O livro, pese embora o que representa em termos de sacrifício de elementos naturais para a sua elaboração, é peça fundamental na passagem de conhecimento e testemunho, de opiniões e propostas, e portanto a sua celebração é a celebração da própria capacidade criadora do género humano.
Numa época que passou de um hedonismo desmedido, para uma depressão de limites ainda sob grande incógnita, o livro subsiste como um valor em si mesmo e como elemento de ligação fundamental entre os vários povos e as diversas gerações. O acesso à leitura, ao conhecimento de uma lingua escrita faz-se, ainda hoje, antes de tudo pelo livro, e não é raro assistir-se à passagem de crónicas em jornais e revistas, e até mesmo crónicas na chamada blogosfera (ou twitosfera ou outra esfera qualquer virtual, mas de nome muito feio) para o livro, de forma a garantir a sua perenidade.
Hoje os hábitos, a necessidade, ou a procura da leitura estão bastante degradados, por isso um dia que seja dedicado ao livro é sempre uma necessidade. Voltemos aos autores que já lemos, descrubramos um autor e uma literatura desconhecida. Tot libre és una eina de libertat (Cat - todo o livro é uma ferramenta de liberdade)

sexta-feira, 17 de abril de 2009

As ordens superiores


A administração Obama, admitiu oficialmente a utilização de tortura sobre os presos de Guantanamo, os chamados prisioneiros da "luta contra o terror" cavalo de batalha da anterior Administração.
Penso que todos ganhamos com esta admissão, temendo, contudo, que essa realidade se estenda bem para lá de Guantanamo e bem para lá dos supostos terroristas que lá se encontravam.
De qualquer forma ficamos também a saber que os torturadores não sofrerão qualquer penalização. Considera a Administração norte-americana que estes apenas cumpriam ordens superiores, donde não podem ser responsabilizados pelos actos que praticaram.
Sabemos que além de militares, temos entre os interrogadores médicos que atestavam das condições das vitimas, e mais não sabemos mas podemos conjecturar.
É terrível ver como a repressão nunca cessa de alegar as mesmas desculpas, ordens superiores. Ordens superiores alegaram os torturadores Chilenos, os Argentinos, Os Brasileiros, os Nicaraguenses, os Sul-africanos, e alegam ainda os Israelitas. Todos estes tiveram o traço comum de terem sido formados e treinados pelos Estados Unidos sobre diversas Administrações. Deve ser portanto um mal de formação.
Os Governos dos EUA, que tanto criticam e criticaram no passado, as situações nos países Socialistas, grandemente secundados por uma vasta de gama de Governos e de personalidades, umas mais bem intencionadas que outras, tiveram, tinham e têm situações tão ou mais graves que escamoteiam e iludem. Mas não faz mal porque ordem cumprida justifica-se a bem da Nação.
Mas a bem da Nação outros estiveram. Afinal os Nazi-fascitas também mais não fizeram, dizem, do que cumprir ordens, e com ordens e torturas foi-se construindo o horror que todos conhecemos. Assim está Obama, hoje justifica-se uma tortura, amanhã uma morte, depois várias, uma guerra, um mortandade, um extermínio, acabando-se facilmente num genocídio, e sempre ao serviço da pátria.
Pois é, os nazis foram julgados em Nuremberga...mas afinal também estavam em cumprimento do dever...ou não estavam? Sendo assim, tudo é justificável.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Soeiro - 100 anos



Foi mais do que um escritor, não lhe bastou escrever, descrever, contar o que a experiência de vida e observação do mundo lhe permitiu. A acção, nos movimentos associativos, nas relações sociais, nas actividades desportivas, e como militante comunista, fizeram deste homem um daqueles que não baixou os braços, que lutou na transformação da realidade e da vida, deixando neste conjunto que tem de ser considerado a sua obra, uma marca no futuro do nosso país, do nosso povo, na História e nos povos.
Lembrarmos esta acção em todos os aspectos, é uma forma de homenagearmos os os personagens dos Esteiros, da Engrenagem, em todos os aspectos da sua grandeza e da sua miséria, das suas forças e das suas fraquezas, é celebrarmos o homem como ser social em luta pelo direito à dignidade ao futuro.
É celebrarmos a sua acção colectiva enquanto militante e dirigente do PCP, na sua acção, em proximidade dos que trabalham, dos que procuram respostas, dos que lutam por um mundo sem exploração do homem pelo homem, da Cidade não do lobo mas do irmão.
Não é possível separar em Soeiro Pereira Gomes, assim como não é possível pra muitos outros, separar as várias facetas da sua obra, enquanto escrita e enquanto acção na vida, pois ambas são facetas de uma mesma realidade de sacrifício pela melhoria das condições de vida e trabalho, do nosso povo.
Todos, militantes conhecidos, ou anónimos, dirigentes ou militantes da base, funcionários ou activistas, todos por igual são, de alguma forma ou outra Soeiros Pereiras Gomes. No trabalho que desenvolvem, nas associações e colectividades em que se organizam, nas obras que realizam, todos transportamos conosco a faísca desse entrega, dessa luta, desse sonho que vamos construindo e tornando realidade.

A República Universal constroi-se


Hoje celebra-se mais um aniversário da proclamação da Segunda República Espanhola. Eu, como adepto da República, como única forma de governo democrático e alavanca para o socialismo, acredito na República Universal.
A génese da palavra República (do latim vontade do povo), é a mesma da Democracia (do grego governo do povo), isto porque qualquer ideia de um governo do povo tem que ser exercida pelo povo e não por um qualquer agente por maior que seja a sua unção divina. E é por isso que democracia, que o seja genuina e participativa, não é compaginável com uma monarquia, por benevolente que seja. A vontade de povo não se pode cumprir com um coordenador máximo hereditário, até porque nenhum gene garante qualidade de trabalho.
A República Universal porém vai-se construindo, é formada por vários retalhos, em avanços e recuos, mas tendendo a que se estabeleça de uma forma crescente sistemas aperfeiçoados de vontades populares. Há-as ainda burguesas, a maioria, ainda há zonas onde nem sequer as há, mas a luta e o caminho em direcção a elas são sempre caminhos em direcção à quebra com as tradições estabelecidas e onde os povos vão alcançando maior poder. Este é um passo essencial para o o amadurecimento da ideia de uma sociedade socialista a nível global. Mas não vem por oferta, é necessária luta. Por isso aqui fica o meu abraço fraterno aos povos Castelhano, Leonês, Catalão, Basco, Galego, Asturiano, Andaluz, Balear, Aragonês, Estremenho, Canário, pela conquista de uma solução republicana para Espanha, que garanta a igualdade de direitos culturais e cívicos entre estes povos, garantindo uma união fraterna que possa fazê-los convergir numa via socialista. A luta pela terceira República só pode trazer melhorias às relações destes povos e sanar contradições existentes até hoje. Só pode trazer uma convivência mais sã dentro da Península e, portanto, também um ganho para nós Portugueses.
Esperemos que muito tempo não falte para essa realidade.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Não! A Comuna não está morta.

Este artigo foi escrito e publicado no "Registo" de 13 de Abril. Contudo, porque tenho a nitida noção que foi enviado para as páginas finais do jornal, quer por não ter sido inteiramente compreendido pelos responsáveis, quer porque quem lê títulos não lê interiores, deixo aos eventuais leitores do blog a sua transcrição na integra.




Durante anos, especialmente após a segunda guerra mundial, os governos dos EUA e da Europa ocidental pensaram que terciarizando a economia e deslocalizando as industrias extractivas e transformadoras para países subdesenvolvidos, criavam as condições para a alteração das classes sociais, até um ponto em que, como se acreditou durante algum tempo, a luta de classes teria acabado, bem como a ligação das populações aos partidos ideológicos, especialmente aqueles ligados à emancipação do operariado, ou seja, aqueles que ideologicamente se assumiam como herdeiros da Comuna de Paris. Contudo esqueceram e esquecem, que este fenómeno, que é o próprio motor da história, não se perde, nem se cria, apenas se transforma ao longo do processo.
Ao terciarizar a economia, o que fizeram também foi empregar nesse sector maioria da força de trabalho, pelo menos aquela que possuía formação para tal, força de trabalho essa que não passou a ser dona da sua ferramenta de produção, logo que está a alienar o seu trabalho para sobreviver. Acontece que esta é exactamente a condição do proletário. Daí que o que foi realmente consumado foi a proletarização do trabalho terciário.
Sendo verdade que esta classe não tem hoje consciência da sua situação, a evolução das condições em que trabalha e das vicissitudes que enfrenta, torná-la-ão progressivamente mais reivindicativa e exigente, acabando por a aproximar desses mesmos partidos, dos quais tanto esforço foi feito para afastar.
O fenómeno da expansão do consumo e do acesso ao crédito, que vinham sendo tentados desde os anos trinta mas, que tiveram a sua exponencial no início dos anos sessenta, não só significava uma capacidade acrescida de acumulação de capital, mas servia também a propaganda de um modelo social que afirmava que o conforto e mesmo o excesso eram frutos naturais da economia capitalista a obter sem grande esforço, com a óbvia vantagem de amarrar os trabalhadores e as várias faixas etárias ao pagamento a prazo desses bens e serviços, alienando-os da reivindicação de direitos, através da sujeição a condições de trabalho cada vez mais duras, precárias, disfarçadas de maior mobilidade de emprego e flexibilização de oportunidades, abrigadas por uma robusta e eficaz segurança social, que se mostrou um logro tão grande, quanto as próprias facilidades de aquisição de bens.
O falhanço do modelo económico e social baseado nestes pressupostos, à escala mundial, revelou de forma cabal que as necessidades de salários mais justos no momento, e não a venda de trabalho ainda não realizado, e o fortalecimento dos sistemas produtivos, em detrimento da especulação sobre produções inexistentes ou de muito duvidosa existência, era a única forma de garantir paulatina, mas solidamente a satisfação de justas aspirações, como a casa, a saúde, o ensino ou a qualidade de vida. E que a reivindicação dessa classe que se viu de um momento para o outro privada de um nível de vida, que julgava garantido, mas que na forma como o estava era insustentável*, não é senão a manifestação concreta da luta de classes.
Em última análise é a própria dinâmica da luta de classes a determinar a ligação dos partidos Comunistas à população, por representarem a resposta a um conjunto de questões assinaláveis, e não uma resposta eleitoral baseada em casuísmos ou causas desgarradas. Estas podem ter um atractivo imediato, acompanhado por um sucesso tão explosivo quanto efémero, mas no fim será sempre o conjunto de respostas e propostas coerentes, que visam a transformação, que terá a última palavra. De facto a Comuna não morreu.


(*entenda-se por depender do endividamento sucessivo dos trabalhadores e não pela justa districbuição da riqueza gerada)