Monumento à 33ª brigada SS Estónia. (Não deixa de ser curioso que enquanto os monumentos da derrota Nazi estão a ser demolidos, os que glorificam a participação báltica nas forças Nazis são erguidos e glorificados)
No dia 26 de Março o Parlamento da República da Estónia votou esmagadoramente aquilo que foi eufemisticamente chamado de restrição do direito de voto nas eleições municipais, mas que na prática é o cancelamento deste direito, bem como o de ser eleito, aos “cidadãos” de língua russa.
Esta atitude é justificada pelo Governo e o Parlamento de Talin pela invasão da Ucrânia pela Federação Russa, donde os elementos -seriam melhor designados assim – de língua russa se teriam tornado um problema para as tomadas de posição da República da Estónia.
Embora pouco ou mesmo nulamente divulgada pelos órgãos de comunicação nacionais, podemos encontrar na internet diversos textos de defesa desta posição alicerçada neste argumento. Porém a explicação dada esquece, ou omite, que a negação da cidadania Estónia a estes indivíduos ocorreu aquando da independência do estado báltico e nessa data não existia nenhum tipo de guerra na Ucrânia, independentemente das opiniões que se tenham sobre o seu início.
Nessa altura foram impedidos de ser cidadãos da Estónia, todas as pessoas de língua russa, independentemente da sua ligação ao território. Os cujos pais e avós para aí tinham ido viver no fim da segunda guerra, ainda tiveram a opção de ter a cidadania russa e assim tornar-se estrangeiros na sua terra. Os que por infelicidade, os seus antepassados para aí tinham ido habitar há 200 ou 300 anos, bem antes de existir Estónia, não tiveram direito a cidadania alguma, sendo apátridas (eufemisticamente chamados de não cidadãos), numa prática condenada pelas Nações Unidas, mas que desde há mais de trinta anos parece não causar mossa a ninguém. Hoje não têm passaporte de nação nenhuma, têm um passaporte de cor cinzenta (único na EU) de não-cidadão.
A uns e outros, que no conjunto representam 15% da população da Estónia, são restringidos direitos, que consideraríamos tão básicos como pleno acesso ao Emprego no Estado, à Educação ou aos Cuidados de Saúde, ou o voto na eleições nacionais. Se lhe trouxe à memória a situação na Cisjordânia ou um passado ainda não distante da África do Sul, creia não é mera coincidência.
Foi nestas condições que a “democrática” UE acolheu a adesão desta República, sem que nada fosse questionado ou levantasse a menor sombra de indignação nas instituições ou nos Estados-membros. Poderia dizer o mesmo da NATO, não fora o caso desta aliança militar não ter grandes preocupações em promover-se como baluarte da democracia e dos direitos humanos, ainda que o faça constar quando convém.
Se o voto local era já a última forma de se fazer ouvir, doravante será mais fácil ter-se nascido em Lanzarote, Santa Cruz das Flores, em Ballymena ou na Ilha de Gozo e ter direito de eleger e ser eleito em Narva, do que ter aí nascido, ter os seus avós e bisavós aí enterrados, e nem nunca ter sequer daí saído. Basta para tanto ter a etnia e a língua errada. Pode até não falar uma palavra de estónio, isso a si não se aplica. Basta que não seja russo.
Não estou em crer que estas observações venham a fazer a menor diferença ou a fazer pensar as mentes pensantes. Mas se fizerem acender uma centelha de curiosidade para procurar e investigar, então já terá valido a pena.